Curso | Análise de rede para mídias sociais

Claire Danes as Carrie Mathison in Homeland (Season 5, Episode 3). – Photo: Stephan Rabold/SHOWTIME – Photo ID; Homeland_503_5519.R

A primeira vez que eu ouvi falar sobre análise de rede foi na série Numbers, que voltarei a comentar aqui em algum instante porque teve forte influência em minha reaproximação com matemática (hoje) e na época da faculdade. No entanto, ‘análise de rede’ se tornou memorável pra mim na primeira temporada de Homeland. Carrie Mathison tentava encontrar uma conexão entre o terrorista islâmico Abu Nazir e o Brody, um soldado americano que voltou como herói do Afeganistão. Desconfiada, ela estudou todas as redes dos dois, separadamente, tentando encontrar um elo entre elas. Ela não acreditava que Brody poderia voltar aos Estados Unidos após 9 anos preso sem ter sofrido algum tipo de lavagem cerebral dos terroristas. Infelizmente, por sofrer de ansiedade, bipolaridade e depressão, o FIB tirou a investigação dela em um dos episódios. Eles acreditavam que ela estivesse atrapalhando o governo. No fim, sua intuição estava correta e eu não vou explicar mais detalhes. Assista a primeira temporada.

Em séries de crimes americanas, como Law and Order SVU, Criminal Minds, dentre outras, é comum haver boards onde tentam encontrar conexões entre criminosos e suas vítimas. Ou entre criminosos, como no caso de Homeland. Ou entre criminosos e seus locais de atuação.

Leia também: Decoding The Detective’s ‘Crazy Wall’

“‘Network analysis’ pode ser usada para diversos fins como estudos de arquiteturas elétricas, coisas e suas interações, relação predatória, financeira e social. Descobrir coisas é uma das principais funções da análise de rede. Importante para entender similaridades, diferenças, conjuntos e processos com artifícios cognitivos e científicos.”

Dividido em 5 módulos, o curso ‘análise de redes para mídias sociais’ do IBPAD é essencial para profissionais de big data ou pesquisadores, como eu, que ousam estruturar dados digitais volumosos para analisar comportamento em redes sociais de alta complexidade. Mostro aqui as redes que fiz ao longo do curso porque voltarei a falar deste assunto, visto que o MBA da FIA abordará ‘análise de rede’ dentro no módulo 1 de introdução ao Big data e do módulo 2, em  Estatística aplicada (🧡). Particulamente estou bem curiosa com a abordagem da faculdade porque nesta semana aprendemos a contar palavras em milhares de tweets usando o Cloudera/Hadoop/Eclipse, afim de desenhar redes mais complexas. Segundo Rosângela Pereira, especialista em Hadoop, o java permite exportar as palavras em txt. 

1a e 2a | De primeiro somos introduzidos com o conceito histórico de redes sociais que está longe de ser sinônimo de Facebook. Nomes como Jacob Moreno e George Simmel, e seus estudos, são mencionados para falar de interações entre humanos em sociedade estudadas há pelo menos 60 anos. Para fazer análise de rede, nós usamos a teoria dos grafos. Um sub-tema da matemática. Uma rede é composta por nós e laços. Como me interesso por sistemas complexos, um assunto fascinante da engenharia que irei falarei em breve, vejo alguns matemáticos (ou engenheiros) usarem vértices e arestas em referência, mas são sinônimos. No caso de redes sociais, nós podem ser perfis no Instagram, Facebook, Twitter, Sites/Blogs ou hashtags e arestas podem ser retweets, menções, curtidas e interações ou também uma hashtag.

Fiz o fluxograma abaixo que sintetiza as informações contidas neste módulo. 

3a, 4a e 5a | Os módulos 3, 4 e 5 são mais práticos. Não vou entrar em detalhes sobre as ferramentas, mas sim demonstrar alguns estudos que eu fiz com os módulos. O que eu gostei deste módulo é que existe um estímulo dos professores para que as redes sejam criadas. Gostei quando foi mencionado que é interessante fazer diferentes layouts para demonstrar análises mais completas, portanto essa é a minha proposta aqui.

Redes no Twitter | #DeleteFacebook

O escândalo da Cambridge Analytica deixou abertas as feridas do Facebook. Dias após um ex-programador da empresa ter revelado a coleta ilegal de dados de (cerca) de 50 milhões de pessoas, a hashtag #DeleteFacebook chegou ao Trending Topics do twitter. Eu comecei a coleta da hashtag no Netylitc no dia 21 de março e também com as keywords “delete” AND “Facebook”.

Layout: Fruchterman Reingold/ Name network

Acima estão em destaque os maiores graus de entrada, como naturalmente, a citação do perfil do Facebook no Twitter. Além do perfil da @CambridgeAnalytica e do @BrianActon, co-fundador do Whatsapp, que postou a hashtag. Em resposta ao Brian, o empreendedor Elon Musk mandou deletar a página da SpaceX na rede.

 

Mesma rede, mesmo layout. Só mudei para a métrica ‘grau de saída’, afim de mostrar os indivíduos mais engajados no debate da hashtag #DeleteFacebook.

Redes no Instagram | Caso Marielle Franco 

A rede abaixo representa as hashtags #MariellePresente e #MarielleFranco no Instagram após o assassinato trágico da ativista. Eu já soltei uma versão prévia que pode ser vista no Slideshare.  Eu extraí como ‘name network’ (redes de pessoas) e ‘chain network’ (rede de conversas) do Neltytic e juntei as 4 redes para formar o grafo abaixo. Em uma das aulas é ensinado como abrir múltiplos arquivos. As análises de rede que podemos fazer com o Instagram são redes entre perfis e redes de hashtags. Abaixo estão os maiores destaques em ‘grau de entrada’ que utilizaram uma das duas hashtags. Viralizou no Brasil #Mariellepresente e lá fora #MarielleFranco. 

Layout: Forceatlas2/Métrica: Modularidade para mostrar comunidades

Há três clusters interessantes onde eu destaquei os maiores graus de entrada, ou seja, foram bastante mencionados na rede formada pelos perfis. Obviamente, o perfil da ativista foi bastante mencionado pelas pessoas que prestaram homenagem a sua memória. O @get_repost por causa do vídeo da Ana de Cesaro que viralizou sem menção a sua autoria, mas que foi repostado em grande volume com a ajuda do aplicativo e o cluster internacional formado pelos ativistas, @mrdavidawilson, @tamukadmallory e do perfil @blackgirlsrock. Há ainda o cluster de ativistas negras brasileiras, como Djamila Ribeiro. O de artistas da Globo, e do Rio de Janeiro, com Glória Pires e Paula Lavigne. De forma isolada, com menos destaque, estão Viola Davis e Naomi Campbell que também postaram sobre a tragédia que completou um mês dia 14 de abril de 2018. Apesar da popularidade dos posts, sobretudo o da Viola Davis, o grau de entrada foi menor. Isso relata a importância de monitoramento constante de perfis porque nem sempre pessoas populares são grandes influenciadoras em determinados assuntos.

Maiores graus de entrada dos perfis 

Disclaimer: Após o escândalo da Cambridge Analytica, o Facebook decidiu não autorizar o Neltyic a coletar conversas no Instagram. Atualmente só é possível fazer isso com hashtags e localização. 

Redes no Facebook | Luisa Mell e ativismo vegano 

O ativismo vegano (ou vegetariano) nas redes sociais é curioso. Não existe uma separação entre o que é causa animal e um assunto de interesse. Por exemplo, se uma pessoa faz uma página para compartilhar receitas veganas, vez ou outra ela irá advogar em prol da causa. Se torna, de fato, um estilo de vida.

A rede acima foi colhida a partir da id da página da ativista Luisa Mell. Tive algumas surpresas: a primeira delas é que sua página não curte páginas brasileiras. Outra é que ela curte ‘Ben and Jerry’s’ que produz sorvetes veganos, mas eles não são o carro-chefe da empresa. A rede acima está selecionada com a métrica é a “closeness centrality”, onde eu gostaria de mostrar quais são os nós mais próximos uns dos outros. Quem está centralizando as conversas sobre o tema é, claro, a página do PETA.

Leia mais: Mercado vegano cresce 40% ao ano no Brasil

Redes no Youtube

Foi através de influenciadoras vegetarianas que descobri o ‘Water only’, tema da rede abaixo. Trata-se de uma técnica para lavar os cabelos apenas com água. Observe  a rede formada pelos comentários do vídeo da Luisa Moraleida, vegana que tem o vídeo brasileiro mais popular falando do assunto. Selecionei por ‘chain network’ no Neltytic, visto que eu gostaria de mostrar as conversas mais concentradas nos comentários do seu vídeo. Neste caso eu usei a rede formatada pelo Neltytic. 

1142 – posters with ties/ 1159 ties (include self loops)

As 30 palavras mais citadas no comentário do vídeo da Luisa. ‘Oleoso’ pode ser uma referência de mulheres de cabelo liso/alisado porque representa um certo receio com a técnica. É raro, mas a queixa pode acontecer entre mulheres de cabelo cacheado ou crespo. Por este motivo eu aponto que mulheres do cabelo liso podem frequentemente perguntar ‘Será que o meu cabelo vai ficar oleoso?’. Ainda há a presença proeminente da palavra ‘cacheadas’ por causa de perguntas “Dá certo com cacheadas?”. Menção mais direta a textura do cabelo.

O curso me inspirou a aumentar o nível das pesquisa, inclusive para as minhas entregas atuais. Eu recomendo ir além dos exemplos mostrados e com datasets disponíveis, tenta coletar dados do Netlytic com algum assunto interessante que tem repercutido. Isso te ajudará a ficar mais independente. Com isso, disponibilize o dataset de forma livre. David Dooley, autor de Social Research Methods, alerta sobre transparência em dados e metodologia de pesquisa.

Dicas

  • Ative as legendas das aulas disponíveis. Estudar online exige muita disciplina e qualquer perda de tempo pode ser sentida ao longo do aprendizado.
  • Extraia os dados da tabela para fazer cruzamentos e obter mais informações das métricas calculadas. Não limite sua análise só ao ‘desenho’ das redes.
  • Coloque o gephi em português, visto que as aulas são no software em nosso idioma. No entanto, nem tudo é traduzido no software.

Seria legal se …

  • A barra de rolagem pudesse acompanhar o módulo do curso. Por exemplo, se eu estivesse no módulo 3, a barra ao lado poderia ser semelhante.
  • No Coursera sempre há um vídeo-resumo do sumário, antes do teste. Gosto bastante disso e adoraria ver presente em outros cursos online.
  • Tivesse uma outra edição do curso, só que mais avançado no Gephi. 

 

  • Positivo: Ótimo nível de professores e didática, além de amostragem prática das ferramentas Netlytic e Gephi. Foi decisivo para eu retomar um estudo que fiz sobre o caso Marielle no Instagram que venho monitorando desde o primeiro protesto, dia 15 de março de 2018.
  • Outro ponto legal do curso é intercalar os vídeos com artigos sobre análise de rede, assim como tem no Coursera.
  • Você pode consultar o curso por seis meses.
  • Por fim, o site não desloga o aluno, ao contrário do Coursera, o que eu acho ótimo porque revezo aulas online em dois navegadores diferentes.

Para saber mais: Análise de rede para mídias sociais

Professores: Tarcizio Silva, Max Stabile e Marcelo Alves

Valor: 549*

Nota: 4/5

Tempo de conclusão: 47h60**

*Na época em que realizei o pagamento (março/2018); o valor subiu mas vale bastante a pena.  

*Estimado com o aplicativo Get Focused (que usa a incrível técnica pomodoro) em 7 dias de aula porque além de pra pausar o vídeo em todo instante, afinal este é o meu ritmo de aprendizado, eu tive entregas da empresa, reuniões de prospects, estudei todos os artigos indicados pelo curso e fiz os exercícios. Pra mim essa é a melhor vantagem de cursos online, mas repito que é preciso ser muito organizado, se não você se perde.

Contato: nadjaepereira@gmail.com

2 Comments

  1. […] mostrar as interações do episódio, eu realizei o estudo abaixo utilizando análise de rede. São ‘apenas’ 22 minutos, mas somente revendo cena por cena que é possível perceber as […]

  2. […] Estou falando de nós e clusters, mas em computação, eles possuem um conceito diferente de análise de rede: […]

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