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Livro | Irresistible por Adam Alter

Quando ficamos viciados em likes? Ou a aprovação social é apenas um gatilho para que nós, altamente conectados, se tornem viciados em sites de rede social? É o que tenta descobrir Adam Alter, em Irresistible. O livro começa com uma ironia porque Adam aponta que grandes techies, do Vale do Silício, não deixam os seus filhos à vontade com tecnologia. Os filhos do Evan Willians, um dos fundadores do Twitter, não possuem iPad, algo que seria natural em qualquer infância, independente da classe social.

Você já deve ter lido que redes sociais nos deixam deprimidos, mas Adam traz uma explicação contundente ao problema.  Ele argumenta que quando postamos uma foto, nós esperamos esta aprovação com likes e comentários, o que torna o vício nestas plataformas mais intensos. Apesar das críticas mais diretas à tecnologia, Alter estende o problema para games, compras, esporte e wearables que usam gamificação, por exemplo.

A post with zero likes wasn’t just privately painful, but also a kind of public condemnation: either you didn’t have enough online friends, or, worse still, your online friends weren’t impressed. Like pigeons, we’re more driven to seek feedback when it isn’t guaranteed. Facebook was the first major social networking force to introduce the like button, but others now have similar functions.

Alter, Adam. Irresistible: The Rise of Addictive Technology and the Business of Keeping Us Hooked (p. 128). Penguin Publishing Group. Kindle Edition.

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Nem a gamificação escapa das críticas do autor:

Gamification is a powerful tool, and like all powerful tools it brings mixed blessings. On the one hand, it infuses mundane or unpleasant experiences with a measure of joy. It gives medical patients respite from pain, schoolkids relief from boredom, and gamers an excuse to donate to the needy. By merely raising the number of good outcomes in the world, gamification has value. It’s a worthwhile alternative to traditional medical care, education, and charitable giving because, in many respects, those approaches are tone-deaf to the drivers of human motivation. But Ian Bogost was also wise to illuminate the dangers of gamification. Games like FarmVille and Kim Kardashian’s Hollywood are designed to exploit human motivation for financial gain. They pit the wielder of gamification in opposition to the gamer, who becomes ensnared in the game’s irresistible net.

Alter, Adam. Irresistible: The Rise of Addictive Technology and the Business of Keeping Us Hooked (p. 316). Penguin Publishing Group. Kindle Edition.

É preocupante que crianças tenham livre acesso às redes sociais e jogos viciantes tão cedo, se expondo e deixando de estudar. Enquanto isso nós, adultos, estamos tão viciados na aprovação digital que isto tenha moldado as nossas relações sociais: férias sem postar não são férias, namoros precisam de exposição e ainda temos que mostrar o quão perfeitos são os nossos amigos e empregos. A superficialidade venceu, mesmo que a realidade seja completamente diferente. Ao acabar o livro, eu fiquei com a  sensação de que entramos em um episódio de Bandersnatch, mas, ao invés de escolhermos o final de um personagem, somos nós presos a uma realidade onde o controle não está em nossas mãos.

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Livro | Small data, por Martin Lindstrom

 

Em um dos episódios mais memoráveis de Mad Men, Peggy Olson, ainda como secretária, é convidada a participar de um focus group sobre batons. Na sala lotada de mulheres vaidosas, empolgadas em testar uma nova linha de produtos, Peggy mais observa as outras do que experimenta. Os homens ironizam o comportamento das mulheres na sala, mas, Peggy, por ser boa observadora, consegue ver qual é a história a ser contada na campanha, mesmo sem posse da prancheta com as respostas das perguntas.  Independente do seu gênero, Peggy apresenta qualidade de pesquisadora, porque consegue, de dentro da selva, ter o distanciamento essencial que diminui o viés de confirmação, presente em qualquer pesquisa. Indagada pelo diretor da conta sobre por quê não ter experimentado o batom, a futura redatora respondeu que nenhum deles era a sua cor e disse:

“I don’t think anyone wants to be one of a hundred colors in a box.”

– Peggy Olson

POR INCRÍVEL QUE PAREÇA, quase todos os insights que tive como consultor de grandes empresas globais surgiram dessa maneira. Eu podia estar desenvolvendo uma nova chave para os donos de carros da marca Porsche, criando um cartão de crédito para bilionários, gerando inovações para empresas com grandes perdas, ajudando a superar sérios problemas em grandes redes de supermercados norte-americanas ou tentando posicionar uma empresa automobilística chinesa no complicado mercado global. Uma citação muito conhecida nos diz que, se quisermos entender como os animais vivem, não devemos ir ao zoológico, mas à selva. É isso o eu que faço. Em quase todas as situações, após fazer o que chamo de Pesquisa de Subtexto (muitas vezes resumo para apenas Subtexto), processo detalhado que envolve visitar os consumidores em suas casas, recolher small data (em português, “pequenos dados”) on-line e off-line e destrinchá-los com observações e insights que recolho ao redor do mundo, surge um momento em que descubro um desejo não percebido, algo que gera a base de uma nova percebido, algo que gera a base de uma nova marca, de um produto ou negócio inovador.

Leia mais: Em defesa do Small data na era do Big data

O livro é interessantíssimo porque mescla diário de bordo sobre as experiências do pesquisador ao redor do mundo e os resultados práticos das suas observações, inclusive aquelas que não foram aplicadas – seja por um erro da metodologia ou por um budget apertado do cliente. Me lembrou especialmente sobre as minhas experiências com jornalismo, onde uma frase ou gesto de alguém saltava aos meus olhos durante uma entrevista, o que sempre deixava o meu texto mais com cara de grande reportagem, do que de nota informativa. Além da minha experiência como redatora publicitária ter sido pouco empolgante porque eu não contava histórias, nem via conexão com o que escrevia. Em pesquisa, onde me encontrei há três anos, consigo reunir todas estas qualidades presentes anteriormente, adicionadas às minhas análises com múltiplas planilhas do excel, uma skill necessária para trabalhar combusiness intelligence. Todo dado apresenta uma história, seja em pentabytes ou em três mil tweets contidos numa simples planilha.

Nunca estudei Ciências Sociais, nunca pesquisei sobre Psicologia e não sou detetive, mas já me disseram que penso e ajo como os profissionais dessas áreas. A essas pessoas, respondo que sou um pesquisador de small data ou de DNA emocional — uma espécie de caçador de desejos, hábito que desenvolvi por acaso quando era menino, vivendo em uma fazenda na cidade rural de Skive, na Dinamarca, com uma população de 20.505 habitantes.

Lindstorm, Martin. Small Data (Locais do Kindle 153-157). HarperCollins Brasil. Edição do Kindle.

É possível que “Small data” possa incomodar quem gosta de narrativas lineares porque o autor traça paralelos, por exemplo, sobre opressão feminina em países aparentemente muito diferentes, como Rússia e Dubai. Ele usa uma experiência numa localidade para falar sobre como os humanos se comportam em outro lugar. Pra mim, a narrativa ficou ainda mais curiosa por ser meu estilo de texto. Achei precioso que small data é apresentado como um conjunto de atitudes humanas e, não necessariamente, um dado isolado apresentado por um indivíduo numa entrevista de campo. Aparentemente eles podem não se conectar mas revelam detalhes muito pertinentes sobre uma sociedade. Observando tecidos de roupas, você pode entender os temperos usados pelas sogras nas cozinhas indianas!

Um pequeno dado isolado quase nunca é suficiente para montar um caso ou criar uma hipótese. Porém, misturados a outros insights e observações reunidos ao redor do mundo, os dados podem formar uma solução capaz de criar a base de uma nova marca ou negócio.

Lindstorm, Martin. Small Data (Locais do Kindle 206-208). HarperCollins Brasil. Edição do Kindle.

O trabalho dele é bastante intuitivo e Lindstrom não tem vergonha de expor isso. O seu distanciamento e sagacidade me lembrou o de Peggy no episódio relatado acima. Ao final do livro, o autor alfineta bastante a empolgação com big data e, assim como eu, defende que ambos juntos devem estar na linha de frente das estratégias. Para ele, a integração de dados  “é um elemento fundamental à sobrevivência do marketing e ao seu êxito no século XXI”. Como uma pessoa que consegue unir os dois hoje, eu não poderia deixar de concordar.

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Livro | Big data, uma visão gerencial por Fernando Amaral

O meu primeiro curso de big data, realizado no final do ano passado, foi o do Fernando Amaral na Udemy, o qual eu considero um ótimo introdutório sobre o assunto.  Por este motivo fiquei interessada em ler a sua obra, mesmo que o foco seja mais direcionado aos gerentes de projetos por falar de custos, orientações de contratação de time, ferramentas, dentre outras funções relacionadas ao job deste profissional que é essencial em qualquer time de big data. 

Assista: Por que aplicar Gestão de Projetos em Data Science?

O livro foi importante para relembrar alguns conceitos dados logo no início do curso, sobretudo quando tive o módulo de Introdução ao Big data/Hadoop, em abril deste ano. Destaco alguns trechos interessantes para pretensos cientistas de dados, como eu, sobretudo aqueles que já tem contato com matérias relacionadas. 

Projetos de Big Data crescem horizontalmente, em vez de um “upgrade” no servidor, novos nodos, como data nodes ou name nodes, são adicionados à estrutura de B&A, geralmente, virtualizados. Projetos tradicionais trafegam mais dados do servidor para o cliente ou do servidor para fora da empresa. Em projetos de Big Data, o maior tráfego é entre os nós dos servidores: entre data nodes, entre names nodes e data notes etc.

Em projetos tradicionais, existe uma grande preocupação em só carregar dados em que, a partir de uma análise prévia, se vê valor. Estes dados são tratados e carregados em repositórios pequenos (para os padrões de Big Data) para apoiar decisões. Por outro lado, projetos de Big Data carregam grandes volumes de dados em um sistema de arquivo como o HDFS, em seu formato nativo, mesmo que em princípio não se enxergue valor. Estes dados formam os conhecidos data lakes, ou lagos de dados.

Os 7vs de big data apresentado no Blogando Salvador (Outubro/2018)

Posteriormente, parte destes dados pode ser transformados e carregados em um data mart tradicional. Outra forma que podemos olhar uma solução de Big Data é sob sua arquitetura básica. Neste contexto, temos quatro elementos: fontes de dados, carga, armazenamento, análise e visualização (ou apresentação). Neste aspecto, em uma solução de análise de dados clássica estão presentes estes mesmos elementos de arquitetura, o que mudam são algumas particularidades em alguns elementos. Vamos entender melhor. Quantos às fontes de dados, podemos ter nos dois casos os mesmos elementos: dados estruturados ou não estruturados. Porém, projetos de Big Data têm mais presente fontes de dados não estruturadas, como já estudamos no quesito variedade.

Amaral, Fernando. Big Data: Uma Visão Gerencial: Para Executivos, Consultores e Gerentes de Projetos (Locais do Kindle 195-199). Fernando Amaral. Edição do Kindle.

Se o projeto envolve uma única fonte de dados relacionais para produzir dimensões em um data mart, não podemos considerar Big Data, mas em outras hipóteses, em que existem muitas fontes de dados, ou algumas poucas, mas com, pelo menos, uma não estrutura, ou mesmo dados semiestruturados ou fontes de dados NoSQL, ou até mesmo, claro, volumes de dados além de um projeto tradicional, então sim, todos estes serão considerados projetos de Big Data.

Argumentei no LinkedIn sobre empresas que já falam em domar dados volumosos, sem ao menos terem estruturado o setor de insights nas entregas. O livro é interessante para dar uma freiada nos ansiosos a respeito de big data porque Amaral, por ter vasta experiência no assunto, faz questão de demonstrar que big data não é simples e nem barato. Ás vezes um projeto tem um ano de planejamento para ficar pronto e que pode dar errado (!!!). Big data (ainda) não é carne de vaca, mas, diante da complexidade de implementação e contratação de profissionais, vai demorar bastante pra se tornar a pastelaria como já estão vendendo por aí. 

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Livro | Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais, por Jaron Lanier (Editora Intríseca)

A minha geração é a última que experimentou uma liberdade sem ser digital. Acredito que este seja um dos motivos do maior questionamento dos efeitos negativos das redes sociais nos inúmeros livros sendo lançados nos últimos dois anos, sobretudo por old millennials. Nós tivemos a oportunidade de viver o antes, onde não havia um aparelho nos bolsos roubando a nossa atenção o tempo todo e nem vivíamos presos às notificações do whatsapp. Era tudo mais simples, menos complicado e, talvez, mais autêntico: 

Este livro argumenta de dez maneiras diferentes que o que se tornou subitamente normal — a vigilância generalizada e a manipulação constante, sutil — é antiético, cruel, perigoso e desumano. Perigoso? Com certeza.

Em dez argumentos, o autor propõe uma reflexão sobre o nosso modo de viver conectado o tempo todo. Confesso que o livro me deixou bastante pensativa – quase deprimida, é verdade – porque apesar de trabalhar com análise de comportamento digital, eu tenho uma relação conflitante com meus perfis, sobretudo o Facebook. Seja porque ele atrapalha a minha produtividade, seja por manter relações superficiais e pouco significativas hoje, em sua grande maioria, por conta de um perfil quase obrigatório.

Leia mais: Documentos do Facebook revelam que a empresa debateu vender dados de usuários

Lanier utiliza a expressão “Bummer” para definir os principais problemas das redes sociais:

B is for Butting into everyone’s lives
C is for Cramming content down your throat
D is for Directing behaviours in the sneakiest way possible
E is for Earning money from letting the worst people secretly screw with everyone else
F is for Fake mobs and faker society

Não se trata de romantizar a vida anterior, mas de refletir sobre a forma como estamos sendo manipulados pelos cabeças do Vale do Silício e o Lanier, claro, não poupa críticas a eles. Comento os argumentos que mais mexeram comigo presentes no capítulo nove.

Capítulo nove: As redes sociais tornaram política impossível

Foi quase incólume passar este ano sem presenciar o drama das pessoas por causa da eleição de Bolsonaro. Comentei sobre isso na rede, recebi muitas críticas e, claro, comentários bem dramáticos, o que confirmou minha teoria. Segundo Lanier, a culpa pode ser do algoritmo do Facebook, por exemplo. O medo generalizado deu palco, inclusive, a dados manipulados de violência urbana, de supostos eleitores do militar. O que ao meu ver tem consequências  gravíssimas, similar ao de pessoas na Índia que promovem linchamento por causa de boatos no Whatsapp. 

Como sempre acontece com a Bummer, as mensagens mais horríveis e mais paranoicas recebem mais atenção, e as emoções crescem de maneira desordenada como um subproduto do engajamento que cresce descontroladamente. […] A Bummer está minando o processo político e machucando milhões e milhões de pessoas, mas muitas dessas mesmas pessoas estão tão viciadas que tudo o que elas podem fazer é exaltar a Bummer porque podem usá-la para reclamar das catástrofes que a própria plataforma acabou de provocar na vida delas. É como a síndrome de Estocolmo ou como estar preso a um relacionamento abusivo por cordas invisíveis. Os idealistas amáveis do início perdem, o tempo todo agradecendo à Bummer por como ela os faz se sentir e por como os uniu.

De um lado estamos mais antenados do que antes em política, mas, de outro, nossos medos se tornaram maiores e quase impossíveis de serem superados porque um candidato oponente ao nosso foi escolhido pela maioria. A sociedade afundou em uma paranóia e imbecilidade generalizadas – palavras do autor. E, assim como ele, acredito que isto tomou conta dos debates progressistas ou da direita. Enquanto isso, o Facebook ganha mais dinheiro com a nossa obsessão porque, viciados, se torna mais difícil deslogar e logados os dados de comportamento ficam mais apurados para as empresas nos venderem mais coisas.

Leia mais: How Technology Hijacks People’s Minds

Por fim, o livro poderá ter um efeito nulo em quem (ainda) é apaixonado pela rede. A minha primeira atitude foi desativar a conta do Facebook (de novo) e pensar seriamente em abandoná-la após 11 anos de uso – meu primeiro perfil foi feito em outubro de 2007. Acredito que outras redes também acompanharão esta despedida porque, de fato, só uso o Pinterest e o LinkedIn.  Pra mim foi quase irrestível falar sobre o livro com menos de 24h do fim da leitura e ter a certeza, mais do que nunca, de voltar a fortalecer espaços próprios –  como o bom e velho – blog, por exemplo.

Lanier, Jaron. Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais (Locais do Kindle 2704). Intrínseca. Edição do Kindle.

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