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TV | Análise de rede do episódio “The Contest” de Seinfeld

 

“The Contest”[nota 1] foi o the 51º episódio da série Seinfeld (11º episódio da 4ª temporada) que foi ao ar em 18 de Novembro de 1992.[1] No episódio, George Costanza conta a Jerry SeinfeldElaine Benes e Cosmo Kramer que sua mãe o flagrou desprevenido quando ele estava se masturbando. A conversa resulta em George, Jerry, Elaine e Kramer entrando numa aposta para determinar quem consegue ficar por mais tempo sem se masturbar.

O episódio seria controverso para ir ao ar porque a NBC achava que masturbação não seria um tópico apropriado para o horário nobre. Por causa disto, a palavra “masturbação” não é utilizada em momento algum no episódio. Em vez disto, o assunto é descrito utilizando uma série de eufemismos, apesar de o significado ainda ser claro para a audiência.[2] O escritor do episódio, Larry David, ganhou o Primetime Emmy Award de Outstanding Individual Achievement in Writing in a Comedy Series por seu trabalho no episódio.[3][4] Um eufemismo usado no episódio foi quando um personagem afirmava sobre si mesmo que era “mestre do meu domínio”[nota 2] que significava que ainda estava na aposta. Esta frase se tornou um bordão na cultura popular, embora não seja sempre utilizada para se referir à masturbação.[5][6]

Fonte: Wikipedia 

Para mostrar as interações do episódio, eu realizei o estudo abaixo utilizando análise de rede. São ‘apenas’ 22 minutos, mas somente revendo cena por cena que é possível perceber as nuances contidas nas piadas. A série tem algumas características próprias, como por exemplo, um incidente que une os personagens e se estende em seus núcleos paralelos. Especificamente, em “The Contest”, o enredo está todo centrado no conflito moral da masturbação. A temporalidade define o texto com o fato (a mãe de George o pegando desprevenido) e a ação que envolve os personagens (o concurso). Ernani e Nicola (2002) definem a progressão temporal em narrativas com a metodologia:

ações —-> conflitos —-> resolução do conflito —> mudança de situação.

Mudança, no caso de Seinfeld, não é um ‘final feliz’. A série sempre se definiu ser sobre o nada, ou seja, o cotidiano. Para entender um pouco melhor a análise, eu vou explicar alguns detalhes desta narrativa:

  • A mãe do George, Estelle, vai parar no hospital porque sofre uma queda ao flagrá-lo. Quem a visita ao lado dele é sua prima, Shelly. Em ambas as ocasiões da visita,  George é surpreendido pela enfermeira dando banho numa paciente, elas são bonitas e isso o deixa transtornado.
  • Enquanto o concurso rola, Kramer descobre uma vizinha que anda pelada em casa, o que torna a competição mais difícil pra ele e Jerry, visto que moram no mesmo prédio. A personagem não tem nome, portanto foi apelidada de “naked woman”
  • Já Elaine conhece John F. Kennedy Jr em sua academia, o que a deixa maluca. Eles até se encontram e marcam um date que não dá muito certo.

Metodologia | Análise de rede

Etapa 1 | Primeiro eu listei todos os personagens (junto com suas cenas) que aparecem ou não, mas são mencionados de forma importante para a narrativa. Os principais são Jerry, George, Elaine e Kramer. Já os secundários são Marla (namorada do George), Estelle (mãe do George), Shelly (prima do George), Recepcionista (da academia de Elaine), John F. Kennedy Jr. (da academia da Elaine) e Naked Woman (vizinha do Jerry). Total de dez personagens*.

Nós são os personagens (claro) e as arestas são formadas graças as interações nas cenas. Se um personagem não interage com outro, não está ‘graficamente’ mencionado. Não coloquei peso diferente nas relações propositalmente porque acreditei ser difícil mensurar este fato durante a exibição do episódio. É tudo muito equilibrado. Se tivesse acesso ao roteiro original, certamente poderia fazer isso com uma análise de texto.

Etapa 2 | Após listar os 10 personagens principais e secundários, eu atribuí um número para eles, o que foi importante para a terceira etapa. Aqui eu separei os nós, representei as relações conforme este tutorial e fiz o upload para o software Gephi. Sem esquecer de atribuir ‘grafo não dirigido’ ao importar as planilhas.

Métricas de nós | Grau

Elaine e George têm os maiores graus porque interagem com mais personagens 

Métricas de nós | Closeness Centrality

Personagens centrais no tema são, obviamente, Elaine, George, Jerry e Kramer. A personagem secundária mais importante é Marla, a namorada do Jerry. 

Matriz Adjacente, lista de adjacências e estrutura de dados.

Etapa 3 | Para representar grafos numa estrutura de dados nós usamos matriz adjacente e lista adjacente. A matriz adjacente codifica as relações entre os vértices, já a lista é a forma como o computador lê estas interações. Primeiro eu listei todas as interações dos nós com outros nós.  Desta forma, no mapeamento, fiz a representação da lista de nós em que eles estão conectados. Ou seja, interagindo.

Depois renomeei os personagens com números: Jerry – 1/ George – 2/ Elaine – 3/ Kramer – 4/ Marla – 5/ Naked Woman – 6/ Recepcionista – 7/ John F Kennedy – 8/ Estelle – 9/ Shelly – 10. Portanto, esta tabela acima virou esta tabela abaixo:

“A matriz de adjacência de um grafo G = (V,A) contendo n vértices é uma matriz n × n de bits, onde A[i, j] é 1 (ou verdadeiro) se e somente se existe um arco do vértice i para o vértice j. Se não existir uma aresta de i para j então é necessário utilizar um valor que não possa ser usado como rótulo ou peso.Daqui. Ou seja, o 1 da matriz abaixo significa que gerou 1 bit, a ser processado pelo computador. Não é por volume.

Se houve 5 ou 2 interações entre personagens, não importa, ele foi representado ‘apenas’ por 1 bit. Se não houve interação entre os personagens, como por exemplo, Jerry (1) e Naked Woman (6), não teve aresta, portanto o número na matriz é 0 .

Sinalizei em vermelho a simetria na diagonal principal da matriz.

Dá pra calcular os graus dentro de uma matriz. O número 3 da matriz abaixo é a Elaine. Na horizontal temos o ‘grau de entrada’, já na vertical temos o ‘grau de saída’. Basta contar o número de arestas entre dois nós (personagens). 

“Em ciência da computação, uma lista de adjacência é uma estrutura de dados para representar grafos. Em uma representação de lista de adjacência, podemos manter, para cada vértice do grafo, uma lista de todos os outros vértices com os quais ele tem uma aresta (a “lista de adjacência”, deste vértice).” Daqui.

Lista de adjacência do episódio (representações das interações dos personagens em formato de estrutura de dados)

Lista adjacente com a cara dos personagens (representações das interações dos personagens em formato de estrutura de dados). Como eu mencionei acima, é desta forma que o “computador lê interações”.

Insights

  • Densidade do grafo: 0,356/ Grau médio: 3,2/ Modularidade: 0,238

  • A única relação que geraria um grafo ‘dirigido’ seria a do stand up do Jerry onde ele interage com a platéia. Basicamente seria Jerry ———> platéia
  • Elaine tem o maior grau porque interagiu com mais personagens durante o episódio, como o núcleo principal, além do John F Kennedy, a Marla (namorada do Jerry) e a recepcionista. Isso é confirmado melhor visualmente com a lista adjacente.
  • Jerry Seinfeld é o ator principal da série, enquanto que a situação de George fornece o enredo do episódio, mas Elaine é a personagem que mais interage com pessoas. Achei equilibrado, apesar da série sofrer sim da ‘síndrome de smurfete‘, o que pode ter relação com a época onde pouco se discutia este tipo de abordagem.
  • John F Kennedy Jr não aparece de fato, mas “interage” com três personagens importantes na história, incluindo Elaine
  • Marla é a personagem secundária com maior peso na trama e o ocaso a leva a conhecer John F Kennedy Jr.
  • Kramer é o único que tem uma relação não direcionada com a ‘naked woman’, afinal de contas eles se envolvem no final. Jerry, George, e até Elaine, dão uma espiada na moça que fica pelada em sua casa, mas só o Kramer que realmente a conhece. Situação semelhante acontece entre Elaine e o John F Kennedy. O ‘crush’ da Elaine mal aparece, mas a (quase) relação existiu entre os dois.

 

  • Observações
  • *Excluí a enfermeira e paciente do hospital da mãe de George porque não há interação entre eles. George nem dá ‘bom dia’ para as moças, a cena é paralela a principal para mostrar qual foi a sua tentação.
  • John F Kennedy Jr era o bonitão da década de 90, por isso que Elaine fica completamente fascinada ao conhecê-lo. Ele morreu em um acidente aéreo em 1999.
  • A matriz adjacente é fantástica para descobrir novos insights, mas pouco aplicável para fazer manualmente em redes mais complexas
  • É legal sair um pouco das redes sociais para fazer análise de rede, além de estruturar o dataset antes
  • Comecei o post falando de narrativa e dei uma pincelada em matemática computacional. Vale muito a pena estudar matemática para se tornar um pesquisador com perfil híbrido ao realizar análises de comportamento humano.
  • Não reclame comigo de Spoilers, isso foi pro ar há 25 anos, reprisado inúmeras vezes na TV e está disponível no Amazon Prime.
  • Este post foi livremente inspirado no exemplo clássico de “Os miseráveis” de Victor Hugo usado para o Gephi.
  • Datasets disponíveis

Material de Apoio

  • Formação do cientista de dados do Fernando Amaral na Udemy que me acompanha há uns 6 meses. Ele explica sobre ‘estrutura de dados’ na aula 106, seção 8, em ‘Teoria dos Grafos’. O professor tem ótima didática, mas como ele é engenheiro usa “vértices” ao invés de “nós”, o que pode ser confuso no início. No seu exemplo ele apresenta a estrutura de dados de ‘grafos direcionados’, o que não se aplicou em meu post, mas é válido como conhecimento. Fernando ensina ainda neste módulo a usar a biblioteca IGraph no R. O curso vale muito a pena e me ajuda até hoje.
  • Como criar uma rede no Gephi, do Laboratório de políticas públicas participativas.
  • Estrutura de Dados, com o professor Norton T. Roman, do curso de Engenharia de Computação Univesp que fala sobre os tipos de representação de estrutura de grafos direcionados, não direcionados, com ou sem peso nas arestas.
  • Gramática, Literatura e Produção de textos para o Ensino Médio, de Ernani e Nicola.

Referências